Ilda Nunes distinguida com as Insígnias de Oficial da Ordem do Mérito na Residência do Embaixador

Ilda Nunes distinguida com as Insígnias de Oficial da Ordem do Mérito na Residência do Embaixador

 

O Embaixador de Portugal em França organizou esta semana uma cerimónia de imposição das insígnias do Grau de Oficial da Ordem do Mérito à Provedora da Santa Casa da Misericórdia de Paris, Ilda Nunes. A distinção, atribuída pelo antigo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, reconhece “décadas de dedicação ao serviço da Comunidade portuguesa em França, ao associativismo, à mediação linguística e à preservação da memória da emigração”.

Visivelmente emocionada, Ilda Nunes começou o seu discurso agradecendo ao Presidente da República pela honra concedida. “Permitam-me expressar a minha profunda gratidão ao Professor Marcelo Rebelo de Sousa, pelo imenso privilégio que me concede”, afirmou, sublinhando que a dimensão simbólica da distinção “a toca particularmente”.

A Provedora da Santa Casa da Misericórdia de Paris dirigiu também palavras de agradecimento ao Embaixador de Portugal em França, Francisco Ribeiro de Menezes, e à Cônsul-Geral de Portugal em Paris, Mónica Lisboa, destacando “o acolhimento e a amizade que sempre encontrou na representação diplomática portuguesa”.

Recordou ainda que a família, ausente da cerimónia, esteve sempre no centro do seu percurso e das suas escolhas. “Nada teria sido possível sem eles”, disse, acrescentando que esta distinção ultrapassa a sua pessoa e representa “uma história coletiva”.

No seu discurso, Ilda Nunes revisitou o caminho que a trouxe até França. Chegou a Paris aos 15 anos, vinda de Castelo Branco, para se juntar ao irmão, que fugira da ditadura portuguesa. Contou que o pai, “incapaz de viver longe do filho”, acabou por vir também para França e ter mandado vir a mulher e a filha, para reconstruírem a vida.

Explicou que o domínio precoce da língua francesa lhe permitiu prosseguir estudos, primeiro na Alliance Française e depois na universidade, até descobrir a vocação que a acompanharia toda a vida: o interpretariado. Lembrou o papel decisivo de Michel Sauvêtre, responsável do Inter Services Migrants, que a recrutou “quase no berço”, como ele próprio dizia. Foi intérprete em hospitais, tribunais, serviços sociais e instituições onde a barreira linguística dificultava o acesso aos direitos.

Mais tarde, ingressou na ESIT para aprofundar a formação e, em 1989, assumiu a criação do primeiro serviço de interpretação telefónica em França – fora da France Télécom – um projeto que dirigiu durante mais de vinte anos e que hoje responde a mais de 400 mil chamadas anuais.

Paralelamente, Ilda Nunes foi responsável por traduções para a Segurança Social francesa, formou intérpretes e exerceu como intérprete de conferência para instituições europeias, ministérios e autarquias.

O ensino foi outro pilar da vida de Ilda Nunes: desde 1985 leciona português, história e geografia na ACEP, no Collège Fénelon Sainte Marie, em Paris. Fez questão de agradecer à atual Diretora, Zita Salgado, “pela confiança de décadas”, e evocou com emoção a memória de Maria Teresa Salgado, antiga Diretora da Biblioteca Gulbenkian e Presidente da ACEP, entretanto falecida.

Mas foi o “engajamento social” que, segundo a própria, moldou o seu percurso. “Nada se constrói sozinho”, afirmou, lembrando que cresceu numa família de comerciantes onde ninguém saía de mãos vazias se estivesse em necessidade. Essa marca de infância guiou-a no trabalho associativo.

Em 2010, juntou-se à associação “Mémoire Vive – Memória Viva”, que presidiu entre 2014 e 2020, dedicada à preservação da memória da imigração portuguesa. Em 2011, integrou a Santa Casa da Misericórdia de Paris, primeiro como Secretária-Geral e depois como Provedora, lidando diariamente com situações humanas complexas: “mulheres vítimas de violência, pessoas sem abrigo, idosos isolados ou emigrantes perdidos na burocracia”.

No final do discurso, Ilda Nunes sublinhou que esta condecoração não é apenas sua. “Ela é o reflexo da história da Comunidade portuguesa em França, dos seus combates, da sua coragem e da sua dignidade”, declarou.

Recebeu a distinção “com humildade e como um incentivo a continuar”, lembrando todas as pessoas que a apoiaram ao longo do caminho – tantas que preferiu não nomear, “para não correr o risco de esquecer alguém”.

Artigo publicado no Lusojornal dia 10 de abril 2026 por Carlos Pereira.